Metade

Desculpe o silêncio. Andei vazia. Sem voz.

Coisas geniais e coisas banais misturaram-se até virar calmaria.

Fiquei sem cor. Foi-se a bateria.

Me perdi.

Todo dia se tornou meia lembrança, meio começo, meio cansaço, meio tédio, meia preguiça, meia esperança.

Só o cinza é inteiro.

Tenho perguntas sem respostas e respostas sem perguntas.

Conclusões apressadas, questões demoradas.

Cansaço de me sentir qualquer coisa, menos inteira.

Desculpe o desabafo. Ando sem chão.

A ÚLTIMA DANÇA

Hoje o sol não veio. Nem você. Tudo aqui está cinza, como deveria ser.

Tento parar de cantarolar a música que te fazia dançar. Só lembranças giram na minha caixa de música…

Do nosso dueto… aquele vai e vem, doce…meio brusco, totalmente sem freios, que me tomava o fôlego, me carregava, me arrastava, e depois, simplesmente me deixava.

Por onde andará você agora? Meu mundo está pausado. Cansado.

Tento tirar a imagem da minha cabeça e você de dentro de mim. Mesmo longe você ainda me arrepia…

Lembro do suor, ardendo, aliviando, me tirando o ar. Você me dizendo para te pegar, te mover, te desorientar. Ah, você! Foi meu meio. Foi meu fim.

Esquenta, esfria e lá se vai o tempo. Me perdi de mim.

Seu cheiro, seu gosto, seu abraço, meu amasso… as frases que nunca terminei, os livros que nunca escrevi…tudo virou vento.

1,2,3,4…um giro, uma batida.

1,2,3,4…o mundo para. Você segue.

A música acaba e você não me tira mais para dançar.

TRÍPTICO

As cinco da manhã de um dia qualquer, Marie estava pronta e maquiada. Calçou os sapatos em movimento sem nenhuma graça e desceu doze andares de escada. Estava ávida por encontrar Astolfo e beijá-lo como se amanhã não houvesse.

Driblou um, dois, três. Deu um balão no segurança e como se em uma olimpíada estivesse, saltou a catraca e disparou plataforma abaixo. Embarcou sem ver destino. Passou por um vagão, um músico mambembe, um vendedor ambulante, um beberrão caído no vão dos bancos. Saltou.

Correu a distância feito maratonista até o endereço do amado. Tocou campainha, girou maçaneta, esmurrou a porta. Uma senhora desgrenhada e abarrotada de sono e nada feliz, abriu a porta enquanto o sorriso de Marie se fechava. Onde está Astolfo? Casou e mudou. Cerra-se a porta.

Arrastou-se como pode. Escovou o cabelo mais de cem vezes pensando em nada. Trocou rápidos olhares com os comprimidos dispostos de antemão. Abriu gaveta, pegou papel e se pôs a escrever frases desconexas com todo vigor.

Tirou a maquiagem. Quis ressaltar as olheiras e a palidez de então.

Tomou o celular e lentamente proferiu seu brado de desistência à Astolfo, deixando-o ciente da culpa.

Abraçou o copo, virou o frasco e se deixou cair.

No seu desvario, ela sorria. Satisfeita com o vestido, não quis nem tirar do corpo. Saiu da loja de noivas flutuando em tules e rendas.

Por onde passava, pescoços viravam.

No ponto de ônibus, o primeiro tiro. Uma possa desavisada foi lançada em sua direção por um motoboy apressado. Esbravejou com alma.

Saiu andando possessa.

Não viu o buraco. Caiu.

Quando perguntou aonde ficava a saída, só conseguiu escutar um depende…o resto caiu no vazio.

CICATRIZES

Minha tia tinha um papagaio. Pepito era seu nome. Achava lindo quando ela estendia o dedo e ele subia e se acomodava. Ali ele parecia tão doce!Certo é que não gostava de crianças. Sempre nos dava altas bicadas. Ameaças uns rasantes quando passávamos perto da gaiola.Um dia, ela me fez estender o dedo para que ele subisse.

Suas garras se cravaram no meu dedo com tanta sede que não tive voz suficiente de tanto gritar… parecia um bonecão de posto possuído sacudindo os braços para ele me soltar…não rolou. Grudado estava, grudado permaneceu. O que fica? Uma cicatriz…e a saudade da minha tia que já se foi!

GULA

Sorveu o café feito náufrago,

se agarrou ao pão como se amanhã não houvesse,

mergulhou na boca a tessitura de sabores e lembranças da geléia de manga-rosa

enquanto seus olhos já acarinhavam o bolo quente.

alongou cada vértebra do seu ser espichando-se na cadeira,

sacudiu neurônios junto com as folhas do jornal amarfanhado,

esperou que as más notícias caíssem e sumissem. Não teve sucesso.

Virou página, resmungou, suspirou, xingou…

Quando farto se calou.

Se despiu. Vestiu.

Abriu . Saiu.

Calou o mundo com música em seus ouvidos e bateu a porta atrás de si.

Começava assim mais um dia.

MONÓLOGO

Uma quinta-feira qualquer. Onze da manhã. Interior de São Paulo. Motorista de aplicativo.

Segue a conversa de sempre…fulana de tal? Olá, tudo bom?

Fora a música Gospel tocando ALTO,por alguns instantes prevaleceu o silêncio contemplativo.

Ela me pergunta de onde sou. Falo que venho de São Paulo e não conheço nada da cidade dela e muito pouco da região…

Prontamente ela avisa que não há vida noturna e que eu não me acostumaria viver ali. São Paulo é um mundo!

Me pergunto o que fiz para ela acreditar que gosto da noite, mas quando abro a boca para perguntar, ela começa…

A vida aqui é muito cara, mas tenho meus macetes: sapatos por exemplo, eu compro em Jaú. Em julho eu comprei uma bota de couro, daquelas de montaria e usei viu! Usei bastante e nem gastou nada do solado. “Tá nova”. E sabe o melhor? Paguei $50 “conto”.

Se preciso de roupas, vou para São Paulo. Brás é o lugar. Não faço questão de roupa de grife, não. Eu quero é variedade. Estou convencendo meu marido a ir comigo lá…nessa época tudo fica uma loucura. Mas é disso que eu gosto.

Tenho uma amiga que começou como sacoleira, indo para São Paulo comprar mercadoria e revendendo aqui. Vendia tudo e voltava ao Brás para novas compras. Hoje tem uma loja e toda segunda vai se abastecer com novidades. Semana passada eu que fui com ela. Saímos a meia-noite e voltamos as cinco. Fiquei de cama de tão cansada…

Outro dia, eu peguei uma viagem para Guarulhos, levar um gringo ao aeroporto. Só avisei minha irmã, porque se minha mãe sabe, ela não me deixava ir. O rapaz era Gente fina! Foi cantando o caminho todo…parecia muito feliz em ir embora daqui. Tive que parar no posto para encher o tanque, ele na mesma hora se ofereceu para pagar…fiquei surpresa. Gentileza por aqui não é comum. E olha que eu rodo, viu? Levo gente de tudo quanto é tipo, para tudo quanto é lugar. Quando chegamos lá, ele pagou a corrida e ainda me deu um extra.

Chego ao meu destino, agradeço a viagem e lhe desejo boas festas. Ela se vira, retribui os votos e diz que foi muito bom ​CONVERSAR comigo???

Mr. CAT

Eu tive minha privacidade violada, então nada mais justo do que revelar minha identidade logo de cara e acabar com o mistério – eu sou o gato da foto.

Sim, sou eu quem reina soberano pelo telhado e pelos espaços adjacentes, assiste de camarote às peladas que acontecem na quadra com ares de final de copa do mundo, se delicia com os sabores grelhados na cozinha improvisada no fundo do quintal com direito a varal invadindo o parco espaço que há e, sim, sou eu quem toma sol estirado no muro de forma despudorada e lânguida. Tá bom para você?

Isto posto e muito a contragosto, vou contar o que testemunhei naquele dia… mas só porque quero sossego.

Todos já tinham ido embora. Eu dormia o sono sagrado de quem havia sido bem alimentado e bem acariciado quando um estrondo me arrancou do devaneio. Haviam derrubado as latas de lixo da parede oposta a que eu estava – próximas ao portão que dava acesso a quadra e estavam entrando. Perdão com o trocadilho, mas, eram gatunos mau encarados atrás da sardinha alheia e eu podia apostar meus bigodes como eles iam aprontar.

Reviraram tudo. Comeram o que acharam. Pegaram as bolas, os troféus nos armários e colocaram em grandes bolsas, sacaram sprays e vandalizaram as paredes. Estavam prestem a sair quando me viram e tiveram e brilhante ideia de fazerem um churrasco como minha tenra carne. Nunca gritei tanto na minha vida.

A sorte foi que eu tinha uma garganta em potencial – o que acabou despertando os humores da vizinha, que por sua vez, chamou a polícia, que por sua vez, enquadrou os meliantes, que por sua vez, atraiu a imprensa, que sua vez, invadiu minha privacidade, que por sua vez…cansei gente!

Passada a enxurrada de assédios diversos, fiz minha trouxa e saí em busca de um spa para descansar e me recuperar. Agora vivo a difícil busca pelo anonimato.

OUSADIA

Dia desses, eu estava no Metrô, quando um rapaz entrou, encontrou um lugar vago, sentou e continuou a ler o livro que trazia nas mãos. Na estação seguinte, o vagão já estava mais cheio, os assentos reservados já ocupados e algumas pessoas em pé, quando uma senhora, acompanhada de um menino de uns dez anos entrou pouco antes da porta automática fechar. Ela se ajeitou como deu e acabou parando em frente ao rapaz do livro e sem mais nem menos, falou aos berros:

⁃ Saia daí, que eu quero sentar. Você não se toca?

O rapaz lendo estava, lendo continuou.

A senhora, bem disposta e jovem demais para ter direito aos privilégios garantidos por lei (aqueles que são sempre ignorados), desandou a atacar o rapaz com palavrões e impropérios tantos, aos gritos.

O rapaz não esbravejou, não respondeu, não esboçou nenhuma reação.Tudo o que sentiu, ousou guardou para si.

As pessoas que presenciaram a cena se mostraram divididas: algumas indignadas com a atitude da mulher que exigia o que não lhe cabia e de forma violenta, outras temendo pela mulher que atacava alguém bem mais forte do que ela, outros lamentando a fraqueza do rapaz por não confrontar a mulher e aqueles que propagavam o que teriam feito se fosse com eles.

No meio disso tudo, o vagão deu uma esvaziada e o rapaz foi se sentar em um outro banco mais à frente que tinha acabado de vagar. Uma explosão de aplausos abafou a gritaria da mulher.

Você pode montar mil e duas barricadas com as razões que acha ter. Saiba que o outro lado fará o mesmo. Daí a certeza de que dos dois lados haverá perdedores.

Por que não seguir por um outro caminho?

Por exemplo – parar e pensar qual a magnitude de seu papel na suposta crise e uma vez que constatado, assumir que pisou na bola; se perguntar se está tratando os outros como gostaria de ser tratado; esclarecer as questões envolvidas e investir sua energia nisso – não pressupor nada em relação ao outro -olhe nos olhos- a verdade prevalece sem que seja preciso esbravejar, ofender, humilhar.

É claro que você não precisa abrir mão das suas convicções .Opte por ser gentil, paciente, porém firme.

A viagem seguiu…o rapaz, que não estava sentado em banco reservado, desceu, levando consigo sua anônima dignidade.

O que fica? A certeza de que há outra forma de viver onde não é preciso embarcar na violência seja verbal ou física. E como diria o filósofo:” Você pode sair ferido, mas essa é a única maneira de viver a vida completamente. Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perder.se.”

OHANA

Todos nós temos um grupo Família no WhatsApp e comigo não é diferente. Sabe aquelas mensagens cheias de flores e passarinhos, que as vezes vem na versão luxo, com trilha sonora e luzes piscantes, que geralmente são as tias que mandam?

Eu também recebo e não são poucas.

Falando disso com uma amiga de toda a vida, começamos a mandar uma para a outra, as mensagens que recebíamos só para ter um pretexto de boas risadas e um ou outro comentário irônico.

No começo era só brincadeira, mas depois, passamos a não mais esperar por mensagens desse tipo e a procurar outras tantas formas de mensagens para trocarmos e,então ter a oportunidade de falar sobre tudo e nada rapidamente.

Mesmo que moremos em cidades diferentes, trabalhemos em outros lugares e nem sempre nos encontremos, o que começou com brincadeira acabou nos fazendo um bem tremendo. Amizade boa faz seu dia começar com risada e garanto que não há combustível melhor do que esse…é poder estar, ser e permanecer na vida de alguém , se fazer lembrado, estimado e quem sabe, ser o gatilho para arrancar um sorriso ou riso que tem andado difícil nos últimos tempos. Pode parecer simples, bobagem ou sabe.se.lá.o.que.mais…quer saber? Benditas sejam as mensagens floridas!

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